quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Documentário “Exu e a Ordem do Universo” desmistifica papel da divindade no ocidente Por Vinicius Gregório -27 de abril de 2018

 




Ainda hoje, falar de religiosidade afro-brasileira é sinônimo de polêmica. Principalmente quando o assunto é Exu, uma das divindades mais demonizadas na cultura ocidental e, mais precisamente, no Brasil. Com o objetivo de desmistificar esta imagem negativa atrelada ao Orixá, o publicitário e cineasta de São Paulo, Thiago Zanato, de 39 anos, decidiu ir para a Nigéria conhecer de perto a ancestralidade africana.


Sua viagem ao país africano deu origem ao documentário em processo de produção “Exu e a Ordem do Universo”, que é dirigido e roteirizado por ele. Junto com o paulista, somam-se ao projeto com previsão de lançamento para 2019: Marco Antonio Ferreira, como diretor de Fotografia; Danilo Santos, como editor, além de Adriana Barbosa e o cantor Nasi, vocalista da banda “Ira!”, como produtores executivos. Thiago também já atuou como diretor do documentário “La Flaca”, lançado este ano, que traz como temática o culto à Santa Muerte, uma figura sagrada venerada no México.


“Exu e a Ordem do Universo” é seu primeiro trabalho focado na ancestralidade africana?


Sim, esse é meu primeiro trabalho focado na ancestralidade africana. Antes de ser convidado para fazer parte do projeto, eu já realizava pesquisas sobre a espiritualidade sob o prisma social e político. E o curta “La flaca” já tinha um viés religioso, social e político. Foi a partir deste trabalho que surgiu o convite para fazer parte do projeto que, até então, era apenas fotográfico e começou em 2015.


Quando surgiu a ideia de produzir este documentário?


Em agosto de 2017, fui para a Nigéria fazer uma pesquisa de campo para ver se valia a pena desenvolver o projeto. Achei interessante e vi que era válido desenvolver a ideia. Comecei a desenvolver o roteiro. Em seguida, começamos a produzir o teaser que está no ar. Na época, o time era um pouco menor.


O que te influenciou a focar na figura de Exu e qual é a sua relação com a religiosidade afro?


Uma das razões para eu ter escolhido Exu foi porque durante o processo de pesquisa, o primeiro livro que veio parar na minha mão era justamente sobre essa divindade. Já tinha ido a um terreiro antes, mas não era frequentador assíduo. Sempre gostei da Teologia Africana, sempre achei bem atraente, leio muito sobre, ainda frequento terreiro de vez em quando, mas não sou adepto. Posso dizer que sou apenas um admirador da religião.

Quanto tempo duraram as gravações? O processo de produção foi muito trabalhoso?


Na verdade, as gravações não terminaram ainda, o processo está sendo bastante trabalhoso. Já acumulamos mais de 100 horas de material. Precisamos ver e rever o roteiro. É um verdadeiro vai e vem até encontrarmos a forma ideal para o filme. Há entrevistas que são em Iorubá. Então, o material acaba se tornando bastante complexo.


Houve um momento especial que você elegeria entre o que vivenciou até agora?


Eu acho até difícil apontar um momento. Talvez o mais impactante tenha sido na Nigéria. Ver o jeito que as coisas são feitas lá foi bem diferente do que eu esperava. O que mais me marcou foram as relações entre as pessoas no contexto religioso. Achei a relação entre eles muito bonita. A hierarquia ali era muito horizontal, era uma união muito forte. Apesar de eu ser branco, eles me receberam de coração aberto. Fui muito bem recebido. Lá a hospitalidade é um traço bastante característico, é uma cultura muito receptiva.


Quais foram as locações?


Iniciamos gravando 15 dias na Nigéria. Em seguida, mais 15 dias em São Paulo e, em junho, iremos realizar gravações na Europa. Lá vamos fazer registros na Eslovênia, Espanha e Croácia. Nestes países, o culto aos Orixás está começando a se espalhar. Já existem alguns terreiros associados ao Oduduwa. Futuramente, iremos realizar mais gravações no Brasil, mas o local ainda não está definido.


Quem são as personalidades que contribuem com depoimentos ao longo documentário?


O filme traz alguns personagens principais. Até agora, temos depoimentos do professor Babá King, o Nasi também entra como um dos personagens, tem a Jasmina, que é Eslovena. A Yiákemi Ribeiro, que é coordenadora do Grupo de Pesquisa Estudos Transdisciplinares da Herança Africana (CNPq-UNIP) e a Tânia Vargas.


O projeto conta com patrocinadores?


Até agora, é um filme completamente independente. Estamos utilizando nossos próprios equipamentos. É um trabalho grande. Então, estamos em busca de parceiros para nos ajudar a levar o projeto adiante.


Qual seu principal objetivo ao produzir um documentário que fala de uma divindade tão controversa como Exu?


O foco é desmistificar a imagem de Exu que se tem aqui no Brasil, que é essa imagem negativa, que é associada à Magia Negra e essa coisa de desmistificar Exu é bastante delicada. Os processos que levaram a essa distorção de sua imagem ocorreram em contextos históricos de grande importância para o mundo ocidental como um todo, onde o principal objetivo sempre foi desvalorizar a imagem da cultura negra. Apesar da proximidade com a questão religiosa, esse não é o único foco do filme. Há também a questão político-social que entra no âmbito da intolerância religiosa.


Que tipos de registros foram feitos?


Na Nigéria, foram feitas entrevistas com sacerdotes, visitas a lugares históricos tradicionais que são importantes para a religião, registramos também a saída de alguns Orixás. Além disso, também captamos alguns rituais que, de acordo com eles, nunca foram filmados, como os de iniciação.


Você pretende desenvolver mais trabalhos sobre outras divindades?


Pretendo fazer outros trabalhos, pois é um universo muito rico e acho um absurdo existirem poucos filmes bem feitos e que retratem a história dessas religiões. O Brasil é muito carente nesse aspecto. Sou bastante inconformado quanto à isso. Ainda não tenho algo em mente, pois ainda estou focado neste atual projeto, mas pretendo realizar outros trabalhos direcionados a esta temática.


Como está sendo a experiência de produzir este longa?


É uma experiência enriquecedora, pois é uma filosofia muito profunda, bem vasta e me ajuda bastante no meu ponto de vista brasileiro em relação às religiões de origem africana. E me ajuda também a entender porque as religiões de matriz africana são tão mal vistas. É uma oportunidade única de descobrir de onde vieram alguns conhecimentos milenares que chegaram ao Brasil que a gente tem acesso e, ao mesmo tempo, tem medo. Acho muito bizarra toda a visão que foi construída em relação a essas religiões.


*Estagiário de Redação supervisionado pela jornalista responsável Íris Marini.



 fonte: https://noticiasdeterreiro.com.br/2018/04/27/documentario-exu-e-a-ordem-do-universo-desmistifica-papel-da-divindade-no-ocidente/

Exu é aquele que tem a cabeça afiada

 




Exu é aquele que tem a cabeça afiada como a ponta de um obé.


 Ifá nos conta que sobre a cabeça desse orixá não repousam fardos, ele é um único corpo, um ser integral, que sente/age e reverbera as potências criativas do ser supremo em seu todo. 


Exu, quando se parte, é porque de seus pedaços emergirá um novo ser, tão completo e integral como aquele que havia antes. 


Ele é o movimento primordial, de tempos remotos, antes mesmo da criação do universo, o dinamismo dessa força gerou a primeira matéria, um ponto concentrado que se materializou imantando toda a força propulsora. 


Esse ponto concentrado, materialização da potência de Exu, não suportou conter toda a força criativa e explodiu. 


Da própria energia da explosão gerou-se o movimento de ordenação do universo. 


Dos pedaços estilhaçados por todo o infinito nasceram novas criações, a reverberação desse evento gerou a possibilidade do acontecer, do devir. 


É por isso que Exu é lido como a espiral do tempo, o primeiro corpo, aquele que é dotado de inteligibilidade, que atravessa tudo e todos, pois é o próprio acontecimento em si.




Luiz Rufino

Doutor em Educação- (UERJ) e pós-doutorando em Relações Étnico-raciais- (PPRER/CEFET)

Exu é a força motriz do universo

 


Exu é a força motriz do universo, um poder incontrolável e impossível de ser dominado. 


A interação com o mesmo reivindica uma ética responsiva, uma vez que é ele o múltiplo no uno e o um multiplicado ao infinito, está em tudo e em tudo está. 


Assim, Exu, como uma potência inesgotável, dobra qualquer perspectiva de escassez. 


Por isso ele é o senhor dos caminhos (Onã), pois o seu caráter dinâmico é uma constante produtiva. 


São inúmeros os mitos em que Exu protagoniza pelejas vencendo a morte, e, em grande parte delas, Exu age através de sua perspicácia, a ludibriando, pregando peças nela e a afastando de afetar aqueles a quem ela se destina. 


Como no caso do mito em que Exu salva Orunmilá da morte, servindo a ela a comida que Orunmilá ofertou como ebó. 


Assim, a morte não poderia mais matá-lo, pois havia se alimentado da sua comida.


É importante ressaltar que, em grande parte das narrativas míticas, a noção de morte transcende a dimensão de uma simples oposição à vida. Nesse sentido, destacam-se as perspectivas explicativas assentes na cosmogonia iorubana e, respectivamente, nos cruzos da afro-diáspora, em que a noção de morte, para além da constituição da matéria, se vincula às noções de esquecimento, escassez, desencante e perda de energia vital. 


Esse giro explicativo é fundamental para credibilizarmos os cultos à ancestralidade ‒ suas invocações e encarnações ‒ como um elemento emergente e fundamental na reinvenção da vida na diáspora, na medida em que abrem um campo de possibilidades de combate à escassez.



Luiz Rufino


Doutor em Educação- (UERJ) e pós-doutorando em Relações Étnico-raciais- (PPRER/CEFET)

Esú e o corpo

 




O corpo, princípio de Exu, é esfera mantenedora de potências múltiplas, o poder que o incorpora o transforma em um campo de possibilidades. 


O corpo em performance nos ritos se mostra como arquivo de memórias ancestrais, um dispositivo de saberes múltiplos que enunciam outras muitas experiências. 


Assim, o saber corporal, inteligibilidade e motricidade emanada dos suportes físicos revelam o elemento e núcleo responsável pelas manifestações e reproduções das sabedorias negro-africanas transladadas e ressignificadas na diáspora.


O saber corporal constitui-se como o núcleo de uma série de ações inscritas enquanto estratégias, cuja finalidade é a edificação de espaços onde as identidades sejam vigoradas. 


Assim, nas práticas cotidianas, as ações advindas dessa sabedoria operam na tessitura de identidades reivindicadas a partir de seu próprio núcleo. 


Esse processo enuncia identidades corpóreo-gestuais. 


Nessas vias, as dimensões dos ritmos corporais e a movimentação gestual apontam as encruzilhadas em que as culturas negras estão lançadas. Encruzas essas que alinhavam os permanentes conflitos, embates, adaptações e negociações em que esses saberes estão lançados.


O arrebate do corpo a partir de Exu, bem como a emergência e a credibilização dos seus saberes implicam no exercício de rolês epistêmicos movimentos que nos deslocam ao encontro de caminhos pluriepistêmicos e polirracionais. 


Esses cursos, cruzados e imantados pelo axé de Exu, se atam de forma ética/estética às orientações antirracistas/decoloniais, e se entrecruzam compartilhando o ideal de uma transformação radical implicado na luta pela equidade.





Exú, endenter Exú !






Mesmo interpenetrado a todas as faces da existência humana ele ri de nossas limitações, anseios, zomba daqueles que enveredam pelas obsessões de grandeza e certeza. 

Exu nos faz sentar no vazio, esculhamba nossas pretensiosas verdades. 

Constrói ao destruir. 

No jogo sincopado, o que nos espreita é a queda. 

Não à toa, é ele o princípio da imprevisibilidade. 

Assim, o que há de emergir no vazio do sincopado? 

Exu nos sopra: reinvente-se, crie. Haverá sempre uma possibilidade.



Luiz Rufino

Doutor em Educação- (UERJ) e pós-doutorando em Relações Étnico-raciais- (PPRER/CEFET)

Gorro de Esú !




 

Qual é a cor do gorro que veste Exu?


Qualquer uma que ele queira, ele é aquilo que quiser, é um princípio incontrolável. 


Exu é a divindade mais próxima dos homens, encarnado em nossas existências, desde o grito do recém-nascido ao último suspiro de morte. 


Já diria o sábio conhecedor do riscado: “Exu é o primeiro na vida e na morte.




Luiz Rufino


Doutor em Educação- (UERJ) e pós-doutorando em Relações Étnico-raciais- (PPRER/CEFET)

Exu/Elegbara


 



Exu/Elegbara, esfera de saber negro-africana transladada nos fluxos da diáspora, como princípio explicativo de mundo, potência criativa e disponibilidade conceitual para pensar filosofias montadas e paridas no/pelo corpo. 


Nesse sentindo, a corporeidade como parte da problemática do conhecimento investe na reflexão e crítica das questões epistemológicas como étnico-raciais. 


Assim, via giros enunciativos e os conceitos de cruzo, incorporação e mandinga investe-se em um debate que atenta para questões da ordem do racismo epistêmico, colonialidade do ser/saber e a emergência de outras pedagogias no combate as injustiças sociais e cognitivas.



Luiz Rufino


Doutor em Educação- (UERJ) e pós-doutorando em Relações Étnico-raciais- (PPRER/CEFET)

Exú não é diabo !

  Satanás tem vinte e dois nomes na Bíblia.  Os seus nomes são: 1. Lúcifer (Isaías 14,12). Este é o nome de Satanás antes da sua queda, que ...